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DESAFIOS E DIFILCUDADES - CUSCO, PÉRU

Criado em 1990, Quosqo Maki é uma associação sem fins lucrativos que se consagra, sem fazer distinção entre eles, às crianças e adolescentes, meninos e meninas que trabalham ou vivem completamente nas ruas de um bairro de Cusco, no Peru.
Dentre as atividades realizadas por Quosqo Maki, duas ações experimentais "de risco" estão detalhadas abaixo.

Quando a gente inicia um trabalho de intervenção, a tentação é grande de pensar, sobretudo quando se trata de crianças e jovens, que os problemas serão resolvidos por um agente exterior. Falar em desafio é reconhecer que existem riscos, problemas, dificuldades que criam novos desafios. Refletir é progredir para melhor delimitar a ação. Minha reflexão, apresentada abaixo, trata sobre a ação que nós realizamos em relação à droga e essencialmente sobre a inalação de "terokal", uma cola utilizada pelos sapateiros.

* Duas ações experimentais
* Outros eixos de trabalho de Quosqo Maki
* O funcionamento do abrigo
* A cola (el terokal)
* A perda da dinâmica
* Conclusão do experiência do abrigo
* Que lições podemos tirar dessa experiência ?
* Quais pistas nós descobrimos neste caminho ?


Duas ações experimentais

Dentre as nossas atividades nós propomos duas ações experimentais :

  • O abrigo municipal para crianças que nós realizamos conjuntamente com a municipalidade. Ele está à disposição das crianças e adolescentes, meninos e meninas que não têm abrigo para passar a noite e que são obrigados a dormirem em condições indignas. O abrigo está aberto de 8 horas da noite até às 8 horas da manhã.
    - 98% dos usuários são meninos, 2% são meninas. O abrigo compreende 44 camas, e mais alguns colchões suplementares em caso de grande afluência. 300 crianças diferentes dormem neste abrigo a cada ano, numa média de 35 a 40 cada noite. Eles podem vir quantas vezes quiserem até a idade de 18 anos. 50% deles o freqüentam durante um mês e somente 11% vêm durante mais de 6 meses.
    - No abrigo encontramos um dormitório para os grandes de 15 a 18 anos, um dormitório para os do meio de 12 a 14 anos, um dormitório para os menores que 12 anos e meninas de todas as idades, 5 chuveiros e 3 lavabos, 1 cozinha, 1sala de comer, uma sala de estar, um escritório, 1 dispensa e 1 hall onde se situam os armários pessoais.
    A municipalidade assegura o serviço do copo de leite.
  • A biblioteca não é escolar. Ela está aberta ao público e prevista para adolescentes e crianças. Ela é utilizada principalmente por jovens do bairro ou por usuários do abrigo.
    Ela compreende uma sala de leitura, uma sala com jornais e revistas, uma sala de jogos, uma sala polivalente para o vídeo, as representações teatrais, as conferências, 2 salas para diversas oficinas e um pátio.
    1300 jovens freqüentam esta biblioteca a cada ano, 70 jovens vêm cada dia. Para entrar tem que pagar uma cota anual de 2 sol. Os horários de abertura são de 17 às 22 horas.

Nesses dois locais nós praticamos um método de educação livre, a saber, resumindo, nós procuramos colocar em prática uma dinâmica a partir das escolhas e dos pontos de interesse da criança. O papel do adulto não é o de transmitir conhecimentos ou de modificar comportamentos, mas de estar na escuta, de perceber as questões, de estabelecer relações, de recolher as preocupações, de incitar as iniciativas, de promover opiniões, de alargar as perspectivas e de aprender junto.


Outros eixos de trabalho de Quosqo Maki

A tecnologia para a elaboração de jogos educativos utilizáveis em qualquer lugar.
A publicação de um boletim mensal.
A coordenação com outras instituições que trabalham no mesmo setor com a finalidade de unir nossas forças.
Elaboração de estudos internos para melhor sistematizar as intervenções e externos para conhecer melhor o bairro.

Nossos contatos com os "guinzeurs" (as crianças que inalam "terokal", quer dizer, "guinze") se dão, sobretudo, no abrigo. Atualmente nós temos grandes dificuldades, pois os "guinzeurs" não têm mais o direito de utilizar o abrigo, embora sejam aqueles que têm mais necessidade de usá-lo.


O funcionamento do abrigo

Assim que foi criado esse programa, nós tínhamos decidido de nunca propor às crianças uma transmissão de saber. Nós sabíamos que nós não poderíamos fazer nem um foyer de tipo familial, nem um hotel receptor de clientes. Quando começamos, nós não tínhamos muitas referências. Nós tínhamos somente constatado que, entre as crianças das ruas, muitas dentre elas haviam decidido por si mesmas de sair de suas casas e fugiam das instituições onde a Justiça as colocava periodicamente em pensionato. De fato, o caso delas é semelhante ao dos casais que se separam assim que a vida em comum tira a identidade de um de seus membros (ou dos dois), freia as suas potencialidades e nega sua identidade social. A única diferença é que a separação de um casal é aceita socialmente, enquanto, por outro lado, nós tratamos as crianças como fujonas.

Nós procuramos investigar, então, quais eram os motivos que levavam uma criança a fugir de casa. Dentre esses motivos, contrariamente ao que se pensa em geral, o fator independente da criança tem um peso importante. Aí entram os mal-tratos dos pais ou de um irmão mais velho, a morte do pai ou da mãe, a violência da criança em relação à sua mãe, o alcoolismo, a pobreza, a separação dos pais, a influência dos amigos.

Nós propusemos de definir, juntamente com os usuários, como seria o dormitório. Nós partimos de suas carências (criança abandonada) e não de suas potencialidades (criança livre). A partir daí derivou-se toda a estratégia que nós seguimos : ativar todos os mecanismos de responsabilização individual e coletiva. A vida no abrigo foi organizada à partir de assembléias gerais onde as decisões eram tomadas de maneira consensual. Cada um devia dar a sua opinião para aceitar ou debater uma proposta. Paralelamente, uma equipe de educadores se esforçava para compreender a realidade vivida a cada dia pelos usuários noturnos do abrigo. Eles viviam na rua, discutindo com os jovens, partilhando na noite um cobertor, falando de novidades e de preocupações cotidianas. Foi assim que nasceu a caixinha comum : na rua, um pequeno grupo que havia encontrado um educador entrou em acordo para fazer uma caixinha comum para comprar cobertores e pão, até que uma das crianças propunha : "É melhor colocar os cobertores num abrigo e dormirmos todos lá". Aqueles que trabalhavam deram o equivalente do preço de dois pães, os pequenos que mendigavam o preço de um só pão, e os grandes o valor de quatro pães. O esporte que todos praticam a cada dia à seis horas da manhã começou quando as crianças perceberam que o educador saia para correr sozinho enquanto, antes que eles acordassem. Todos os problemas e as novidades eram discutidos entre todos e a cada seis meses, geralmente, todos partiam para o fim de semana longe de Cusco para avaliar o funcionamento geral do abrigo e o progresso de cada um, inclusive dos educadores. A avaliação pelas crianças da conduta de um educador provava a relação horizontal, a capacidade de cada um de participar na boa caminhada do processo, e papeis diferentes entre uns e outros. As bases do que nós chamamos "a co-gestão" do abrigo estavam postas.
Logicamente, assim resumindo depois de tudo, isso parecia idílico. Mais isso nunca o foi, pois nunca as coisas são cumpridas como previstas e porque problemas imprevistos sempre surgiram. O que é certo, é que uma dinâmica de criação, de descobertas, de trocas de experiências existia e era muito enriquecedora, tanto para os educadores como para os usuários.


A cola (el terokal)

O hábito de inalar cola ("guinzer") não estava muito instalado. Nós sabíamos que às vezes alguns grandes cheiravam para "viajar" de vez em quando, mas isso não interferia muito no funcionamento do abrigo. Era um pouco tabu. As meninas não experimentavam, não mais que aquelas que haviam escolhido de sair de casa. Era como para qualquer criança, a vontade de experimentar alguma coisa proibida, durante o seu tempo livre. Eles paravam com a mesma facilidade que haviam começado. Os consumidores ferrenhos, segundo os depoimentos de alguns dentre eles, podiam abandonar a cola de um momento a outro, para ir ver um vídeo, para ir escutar um adulto de confiança que o chamava no bom momento, para fazer um novo trabalho, porque eles já estavam entediados.

Agora a situação é diferente. Eles começam a "guinzar" muito mais jovens (10-11 anos) e não hesitam em fazê-lo em público, tem, a cada vez, mais e mais meninas que representam um papel importante para influenciar os meninos. Todos "guinzam" abertamente, todos os dias, como para expressar publicamente um protesto. Uma outra diferença : os depoimentos atuais insistem sobre a dificuldade a se desacostumar, falam da importância que tem para eles as alucinações, mas muitos dizem que "guinzam" para esquecer a realidade que lhe é insuportável. Este é um ponto importante. Quem pode viver (o que chamamos viver não é somente respirar) sobre um estresse permanente ? E quem somos nós para condenar aquele que se rebela ? Ou nós os condenamos para nos convencermos de que não somos responsáveis por isso ?

Esses depoimentos nos fazem tocar em dois pontos fracos de uma ação : a falta de estudos e as dificuldades de coordination. Que sabemos nós a respeito da cola ? As pesquisas médicas ou sociológicas sobre a inalação da cola são pouco numerosas e não podem servir de referência para abordar seriamente a questão. Os meios existentes para ajudar os "guinzeurs" a deixar de inalar também não existem atualmente. É evidente que mesmo se a cola não tem as conotações da cocaína ou da heroína porque ela não produz benefícios notáveis, ela faz, no entanto, parte do sistema. Tem muita imaginação nas propostas de culturas alternativas à coca, quer dizer ao oferecimento, mais quais são as alternativas para satisfazer a demanda ? E a demanda de que ? Nós não podemos cair na facilidade de pensar que se trata somente de alguns indivíduos marginais que procuram fugir da realidade. Como o vento anuncia a tempestade, a rebelião é um indicador da injustiça social. Entre nós, é evidente que é uma demanda de utilidade social.

É evidente que nenhum abrigo municipal não poderá fornecer um emprego a todos aqueles que demandam. Mas ele pode ser um grão de areia e uma pista que se abre para desenvolver a capacidade das crianças para enfrentar os obstáculos, como alguns acreditam. Mas não pode ser um pretexto para evitar as responsabilidades políticas.

Com o tempo, o abrigo perdeu sua dinâmica. Esse processo vale a pena de ser estudado na tentativa de compreender as causas.


A perda da dinâmica

A rotina se instalou quando as normas estabelecidas cessaram de fazer questão.
Por exemplo, os horários de abertura (de 20:30 às 23 horas).

A cooperação entre os usuários e os educadores se perdeu porque os educadores perderam o contato com os usuários. Eles não tomavam mais o tempo de conhecer cada um dentre eles e de trocar suas opiniões. Ao invés disso, eles se consagravam a registrar as datas, a distribuir tarefas.

Não havia mais aprendizado mútuo. A criança tinha se tornado objeto de intervenção. As assembléias tinham conservado sua forma, mas tinha perdido seu espírito. As decisões não se davam mais por consenso, mas por comportamento para terminar mais rápido. Os temas eram repetitivos e os acordos não eram respeitados. A fim de colocar em evidência o impacto do abrigo, um processo de planificação das atividades foi colocado em prática pelos educadores que haviam perdido de vista a razão de ser da atividade. Por exemplo, a quota contribuída por cada um para a caixinha comum se tornou prioridade , enquanto que a importância inicial era o debate, a decisão coletiva de uma troca em benefício de todos. Eram os adultos que não contribuíam que decidiam para que serviria esse dinheiro. Para os usuários, a quota exigida na entrada se transformou em uma espécie de imposto, de dever a pagar para poder dormir. O abrigo, desde então, está cada vez mais considerado como hotel barato a utilizar na espera de um melhor. A edificação conjunta de um projeto comum se perdeu na estrada.

É nesse contexto que a assembléia decidiu de recusar a acolher os "guinzeurs" porque eles (o que é verdade) provocavam desordens e causavam más impressões. Como conseqüência, o abrigo não é mais público,
mas sim elitista. Além disso, os "guinzeurs" se agruparam e multiplicaram, atraindo, com todas as forças, novos adeptos.

Num primeiro tempo, nós tentamos organizar discussões ou outros eventos para combater o consumo de cola. Isso não teve nenhum efeito, ao contrário, as tentativas foram contra-produtivas. Nós direcionamos nossos ataques para a cola, quer dizer para um indicador, enquanto que teria sido melhor fazer aos "guinzeurs" propostas mais atraentes. O esporte pode às vezes ser uma boa alternativa. Muitos vêm ao abrigo sem cola nos dias em que, no mesmo, acontecem jogos organizados. Nós brincamos, o melhor ganha e fazendo esse caminho, amizades nascem e bons momentos são partilhados.


Conclusão do experiência do abrigo

Como conclusão, no que concerne a experiência do abrigo, os desafios são variados :
- organizar um serviço público (aberto a todos e não elitista) que beneficia tão bem os usuários que ao olhar das redondezas é uma empresa totalmente diferente daquelas que consistem em trancar os rebeldes para a segurança das redondezas
- mostrar a qualidade de uma intervenção é também avaliar o seu impacto individual e social. Em outros termos, o que devemos registrar dos acontecimentos cotidianos (sem invadir a intimidade nem ferir as suscetibilidades pessoais) que serviriam de indicadores para a evolução dos interesses e que lhes seriam úteis para melhor se desenvolverem ?
- avaliar e repartir claramente os custos entre as diferentes instâncias que vão se beneficiar.


Que lições
podemos tirar dessa experiência ?

O projeto não deve confundir objetivo e indicador. O consumo de droga é um indicador de protesto social e de sofrimento individual e direcionar ataques para o indicador. O projeto deve imperativamente visar os atores e não o objeto. Nós não trabalhamos contra a "guinze", mas para os "guinzeurs".

O projeto é uma cooperação entre os diferentes atores e não uma manipulação, nem uma imposição, nem uma compaixão.

O projeto deve necessariamente se fundar sobre a liberdade e a escolha dos interessados : eles são os únicos a poderem conduzir seu desenvolvimento.

A função de um projeto é de multiplicar as oportunidades para que os interessados tenham uma variedade de opções para dentre as quais escolherem.

A primeira condição a preencher para multiplicar as ocasiões é de conhecer e de fazer conhecer (inclusive aos interessados) a realidade e sua problemática. Isso implica um processo permanente de estudos.
A segunda condição é de coordenar as ações.

O indicador do fim de um projeto é que ele se tornou dinâmico.


Quais pistas
nós descobrimos neste caminho ?

A importância dos espaços não formais, pois eles implicam e intensificam a criatividade ao mesmo tempo em que as ocasiões de socialização (no nosso caso, a biblioteca), devem ser co-geridos, e terem a possibilidade de acolher atividades esportivas e culturais, concursos, organização de viagens, etc...

Os programas do Ministério do Trabalho permitindo aos jovens que não terminaram um ciclo escolar receber uma formação técnica durante 3 meses, seguida de um aprendizado de 3 meses e desembocando num certificado de aptidão profissional.

A importância da dimensão política e social, a vontade da municipalidade.



Para toda informação complementar, se endereçar a Quosqo Maki :

   

Quosqo Maki
Isabel BAUFUME
Calle Fierro 525 Apdo postal 440
Cusco
PÉRU
+ 51 84 23 15 13
+ 51 84 23 15 13
qosqomaki@terra.com.pe

Creada el 5 de março, 2005 - Atualizada no dia 21 de novembro 2008